Saúde

UTIs pediátricas expõem desigualdade estrutural na América Latina
Levantamento multinacional realizado em 21 países identifica déficits de profissionais especializados, tecnologias avançadas e protocolos clínicos...
Por Laercio Damasceno - 07/11/2026


Imagem: Reprodução

Levantamento multinacional realizado em 21 países identifica déficits de profissionais especializados, tecnologias avançadas e protocolos clínicos. Embora equipamentos básicos estejam amplamente disponíveis, a organização dos serviços permanece profundamente desigual — um obstáculo à qualidade e à equidade no atendimento de crianças gravemente enfermas.


A expansão dos serviços de terapia intensiva pediátrica na América Latina não foi suficiente para eliminar uma desigualdade menos visível, mas decisiva para a sobrevivência de crianças em estado crítico: a distribuição desigual dos recursos humanos, tecnológicos e organizacionais necessários ao atendimento. Essa é uma das principais conclusões do estudo SPREAD PED IBERO-LATAM, uma investigação multinacional que analisou 339 unidades de terapia intensiva pediátrica (UTIPs) em 21 países da América Latina, Espanha e Portugal.

Publicado em The Lancet Regional Health – Americas, nesta sexta-feira (6), o levantamento oferece um retrato abrangente da capacidade instalada desses serviços e revela um paradoxo. Enquanto equipamentos considerados fundamentais, como ventiladores mecânicos e sistemas básicos de monitoramento, estão presentes na esmagadora maioria das unidades, recursos mais sofisticados, equipes multidisciplinares e protocolos assistenciais continuam distribuídos de maneira irregular. A infraestrutura cresceu, mas a capacidade institucional de oferecer cuidados complexos não acompanhou necessariamente essa expansão.

A pesquisa foi coordenada por Roberto Jabornisky, Claudio Flauzino de Oliveira, Daniela Carla de Souza e colaboradores de instituições de diferentes países, com participação da Universidade de São Paulo e do Instituto Latino-Americano de Sepse (ILAS). Seu objetivo foi investigar não apenas quantas UTIPs existem, mas em que condições funcionam, quais profissionais estão disponíveis e até que ponto as unidades conseguem incorporar práticas clínicas padronizadas.

Distribuição geográfica e características das unidades de terapia intensiva pediátrica participantes na América Latina e Ibero . A. Distribuição geográfica das unidades de terapia intensiva pediátrica (UTIPs) na América Latina, Espanha e Portugal. Mapa coroplético mundial mostrando o número de UTIPs por país. Tons mais escuros indicam um maior número de unidades, com legendas para os cinco países com maior número de unidades (Brasil, Argentina, México, Colômbia e Chile). UTIP = Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica. B. Distribuição do tipo de hospital por região nas unidades de terapia intensiva pediátrica (UTIPs)...

Uma fotografia regional sem precedentes

Para construir esse diagnóstico, os pesquisadores realizaram um estudo transversal, multicêntrico, com coleta de informações durante cinco dias, em setembro de 2024. Foram convidadas unidades de 21 países, por meio de sociedades nacionais de terapia intensiva pediátrica, redes profissionais e contatos institucionais.

A investigação reuniu informações de 339 unidades, distribuídas entre Cone Sul (166), região Andina (86), América do Norte e Central e Caribe (67) e Península Ibérica (20). O questionário eletrônico padronizado contemplou características hospitalares, número de leitos, composição das equipes, disponibilidade de exames laboratoriais, tecnologias de monitoramento, medicamentos, equipamentos de suporte e existência de protocolos clínicos.

Os dados foram inseridos em uma plataforma REDCap, submetidos a verificações automáticas de consistência e posteriormente analisados com o programa estatístico R, versão 4.4.1. As comparações regionais utilizaram testes de qui-quadrado e Kruskal-Wallis.

O tamanho da amostra representa um avanço importante em relação à literatura anterior. Até então, os diagnósticos disponíveis eram predominantemente nacionais ou fragmentados. Um levantamento publicado em 2012 por Campos-Miño e colaboradores já apontava diferenças expressivas na distribuição de UTIPs: Argentina tinha 125 unidades, México, 85, enquanto Equador e El Salvador registravam apenas quatro cada um, e Honduras, duas. A nova investigação amplia esse panorama e permite observar desigualdades que ultrapassam a simples disponibilidade de leitos.

O fator humano como gargalo

Um dos resultados mais preocupantes aparece na distribuição dos profissionais. A proporção de médicos por paciente foi de aproximadamente um para cinco ou seis durante o dia, passando para um para oito ou dez no período noturno. A diferença indica uma redução da cobertura médica justamente em um ambiente no qual a deterioração clínica pode exigir decisões imediatas.

Na enfermagem, as disparidades regionais são ainda mais evidentes. Na Península Ibérica, a proporção de pacientes por profissional de enfermagem situava-se aproximadamente entre um para um e um para dois. Na região Andina, chegava a um profissional para três ou quatro pacientes.

Essa diferença não é meramente administrativa. Em terapia intensiva pediátrica, a vigilância contínua, a administração precisa de medicamentos, o reconhecimento precoce de complicações e a resposta a alterações hemodinâmicas dependem diretamente da disponibilidade de profissionais capacitados.

A composição das equipes também revela lacunas. Embora 67,9% das unidades informassem acesso a fisioterapeutas, apenas 38,4% dispunham de nutricionistas, 31% de psicólogos e 24,2% de farmacêuticos. Em outras palavras, aproximadamente três quartos das UTIPs não contavam regularmente com farmacêuticos, enquanto quase sete em cada dez não tinham psicólogos disponíveis.

O resultado sugere que a assistência intensiva ainda está excessivamente concentrada em determinadas categorias profissionais, deixando em segundo plano dimensões fundamentais da recuperação infantil, como reabilitação, suporte nutricional, saúde mental e segurança farmacológica.

Tecnologia básica, complexidade limitada

A pesquisa também identificou uma diferença significativa entre a disponibilidade de equipamentos essenciais e o acesso a tecnologias avançadas.

O monitoramento não invasivo da pressão arterial e a oximetria de pulso estavam disponíveis em 99,1% das unidades. A mensuração de lactato alcançava 95,3%, enquanto a ultrassonografia à beira do leito estava presente em 85%.

Os indicadores laboratoriais também eram elevados: hemograma, contagem de plaquetas e dosagem de creatinina estavam disponíveis em aproximadamente 99,4% dos serviços. Hemoculturas eram acessíveis em 98,8%, e a realização de exames de gases sanguíneos na primeira hora alcançava 98,5%.

Entretanto, o cenário mudava quando se examinavam procedimentos e tecnologias de maior complexidade. Recursos de monitoramento do débito cardíaco, espectroscopia no infravermelho próximo e terapias de substituição renal estavam disponíveis em proporção muito menor de centros, frequentemente abaixo de 40%, conforme a modalidade analisada.

A diferença demonstra que possuir uma UTI pediátrica não significa necessariamente dispor de todas as condições para tratar pacientes com falência de múltiplos órgãos ou instabilidade circulatória grave.

Protocolos existem, mas não chegam a todos

Outro achado particularmente relevante diz respeito à padronização da assistência. Apenas 53,1% das unidades relataram disponibilidade habitual de protocolos para manejo da sepse. O resultado evidencia uma fragilidade importante, considerando que a rapidez no reconhecimento da infecção grave e a instituição de medidas terapêuticas são determinantes no atendimento pediátrico.

A pesquisa também identificou inconsistências nos protocolos de ventilação mecânica, sedação, analgesia, suporte nutricional e prevenção de pneumonia associada à ventilação.

O problema não se resume à existência formal de documentos. Protocolos precisam ser incorporados à rotina, acompanhados por treinamento e avaliação contínua. Os pesquisadores ressaltam que aproximadamente um quarto das unidades possuía protocolos sem implementação rotineira, enquanto quase um quinto relatava ausência dessas orientações.

A comparação com pesquisas anteriores reforça a dimensão do problema. Um estudo argentino de 2025 sobre serviços de emergência pediátrica havia identificado protocolos de sepse em 82% dos estabelecimentos avaliados. Na investigação SPREAD PED, entretanto, quase 30% das UTIPs relataram protocolos de sepse inexistentes ou disponíveis apenas minimamente. Embora os universos pesquisados sejam diferentes, o contraste aponta para possíveis dificuldades de continuidade entre os diferentes níveis de assistência.

O que os números não conseguem responder

Os resultados precisam ser interpretados considerando as limitações metodológicas. A participação foi voluntária, e nem todas as unidades existentes nos países foram incluídas. As taxas de resposta variaram de 4,8% na República Dominicana a 100% na Costa Rica. No Brasil, a participação proporcional foi de 17,2%.


Isso significa que hospitais mais estruturados, vinculados a universidades ou inseridos em redes acadêmicas podem estar sobrerrepresentados. Portanto, os resultados descrevem as unidades participantes, mas não constituem um censo completo da capacidade regional.

Além disso, as informações foram autorrelatadas pelos profissionais, sem auditoria externa sistemática. O estudo também não acompanhou pacientes individualmente nem avaliou mortalidade, complicações ou tempo de internação. Consequentemente, não é possível estabelecer uma relação causal entre a disponibilidade de determinado recurso e a sobrevivência das crianças.

Também permanecem desconhecidas as diferenças de desempenho entre unidades com estruturas semelhantes, mas modelos de gestão distintos.

Da fotografia à transformação dos sistemas de saúde

A principal contribuição da investigação está em deslocar o debate sobre terapia intensiva pediátrica da simples expansão física dos serviços para a qualidade de sua organização.

Os pesquisadores defendem uma estratégia que combine investimentos em infraestrutura, ampliação e qualificação das equipes, incorporação de tecnologias e fortalecimento de protocolos clínicos. Também apontam a importância de redes regionais de cooperação, capazes de compartilhar conhecimento, treinamento e indicadores de desempenho.

O desafio seguinte será transformar esse diagnóstico em políticas verificáveis. Isso exige registros nacionais de UTIPs, indicadores comparáveis, auditorias periódicas e estudos que relacionem estrutura assistencial a resultados clínicos concretos.

A pesquisa não demonstra quantas vidas poderiam ser salvas com a redução dessas desigualdades. Mas identifica onde estão algumas das barreiras que podem comprometer esse objetivo.

Em uma região marcada por diferenças econômicas, geográficas e institucionais, o endereço de nascimento de uma criança não deveria determinar a qualidade da assistência recebida quando sua vida está em risco. O estudo SPREAD PED oferece uma base científica para enfrentar essa questão. Seu maior significado talvez esteja justamente nisso: mostrar que ampliar o número de unidades é apenas parte da solução; garantir que todas tenham profissionais, tecnologia e organização capazes de oferecer cuidados efetivos é o desafio decisivo.


Referência
Recursos de terapia intensiva pediátrica na Ibero-América Latina: SPREAD PED Ibero-América Latina, um estudo transversal multinacional e multicêntrico. The Lancet Saúde Regional – Américas Vol. 65 101675 Publicado: 6 de novembro de 2026. Roberto Jabornisky, Claudio Flauzino de Oliveira, Juan Camilo Jaramillo-Bustamante, Jaime Fernández-SarmientoL. Nelson Sanchez-Pinto, Vanessa Soares Lanziottie outros. DOI: 10.1016/j.lana.2026.101675

 

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